Anvisa ampliou nesta semana o uso do medicamento que antes era indicado para o tratamento de Diabetes Tipo 2
Nesta semana, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a ampliação da indicação da semaglutida 2,4 mg (Wegovy) para redução do risco de eventos cardiovasculares maiores, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Segundo Daniel Marotta, cardiologista e chefe da Cardiologia da unidade Santana da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, a decisão representa uma mudança importante na prevenção cardiovascular.
“A aprovação da Anvisa para ampliar a indicação da semaglutida 2,4 mg no Wegovy com foco em redução de risco cardiovascular é um marco importante, porque reforça uma virada de chave: hoje, obesidade e cardiometabolismo deixaram de ser ‘apenas fatores de risco’ e passaram a ser alvos terapêuticos centrais na prevenção de infarto e AVC”, ressalta.
De acordo com o cardiologista, o principal estudo que sustenta essa mudança é o SELECT, publicado no The New England Journal of Medicine, que avaliou adultos com doença cardiovascular estabelecida e sobrepeso ou obesidade, sem diabetes.
“Nesse estudo, a semaglutida 2,4 mg semanal reduziu em 20% o risco de eventos cardiovasculares maiores, como infarto, AVC e morte cardiovascular, quando comparada ao placebo, sempre como adição ao tratamento padrão”, comenta o especialista.
Além da redução de eventos cardiovasculares, a semaglutida apresenta um efeito clínico consistente na perda de peso. No estudo STEP-1, também publicado no The New England Journal of Medicine, adultos com obesidade ou sobrepeso sem diabetes, tratados com o medicamento associado a mudanças no estilo de vida, apresentaram uma redução média de aproximadamente 14,9% do peso corporal. “Essa perda de peso tem impacto clínico relevante sobre pressão arterial, perfil metabólico e inflamação — pilares fundamentais do risco cardiovascular”, explica Marotta.
O que muda na prática da cardiologia?
Segundo o especialista, a cardiologia tem atuado de forma cada vez mais integrada, tratando o paciente cardiovascular além do uso de medicamentos tradicionais do coração. Isso inclui:
- Avaliar o risco cardiometabólico, considerando obesidade visceral, resistência à insulina, apneia do sono e inflamação;
- Individualizar terapias que impactem desfechos clínicos importantes, como infarto e AVC, e não apenas parâmetros laboratoriais;
- Utilizar ferramentas com evidência científica robusta para prevenção secundária em pacientes com doença aterosclerótica e excesso de peso.
“Documentos europeus recentes e diretrizes brasileiras já refletem esse movimento ao discutir o papel dos agonistas do GLP-1 no contexto cardiovascular, inclusive em pessoas sem diabetes, alinhados às evidências do estudo SELECT”, destaca Marotta.
Por fim, o cardiologista reforça que a semaglutida não é um medicamento estético.“Em grupos bem selecionados e com acompanhamento médico adequado, ela se torna uma alternativa capaz de reduzir peso e, principalmente, diminuir eventos cardiovasculares. Sempre deve ser utilizada em conjunto com alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado e controle rigoroso dos demais fatores de risco”, finaliza.
