Cardiologista explica o que acontece com o corpo em dias de altas temperaturas e como se proteger
Com os termômetros atingindo marcas altas, o alerta se acende para dois grupos específicos: idosos e portadores de doenças cardiovasculares. O que para muitos é apenas um desconforto térmico, para esses grupos o calor atua como um estressor severo, exigindo que o coração trabalhe mais para manter a temperatura interna do corpo estável.
Segundo dados do Portal da Transparência do Centro de Registro Civil (CRC) do Brasil, em 2024 foram registradas cerca de 85 mil mortes por AVC, enquanto 77 mil brasileiros morreram por infarto no mesmo período.
“Quando a temperatura ambiente sobe, o corpo humano aciona mecanismos de resfriamento. O principal deles é a vasodilatação, ou seja, o relaxamento das artérias para que o sangue flua mais próximo à pele e perca calor. No entanto, esse processo exige que o coração bata mais rápido e com mais força”, explica Daniel Marotta, cardiologista e chefe da equipe de cardiologia da unidade Santana da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo.
O médico aponta que para quem já possui insuficiência cardíaca ou arritmias, esse esforço extra pode ser o gatilho para complicações graves. “No calor, o sangue também se torna mais denso com a transpiração excessiva, aumentando o risco de formação de coágulos, infartos e AVCs”, comenta.
Além disso, em idosos, a atenção é redobrada devido ao envelhecimento natural do sistema termorregulador. Com o passar dos anos, as glândulas sudoríparas tornam-se menos eficientes e o centro da sede, localizado no cérebro, perde sensibilidade.
Como se proteger durante o calor?
Para enfrentar as ondas de calor, o médico reforça algumas medidas importantes:
Hidratação sempre: não espere a sensação de boca seca. O consumo de água deve ser fracionado ao longo do dia. Para cardiopatas, o equilíbrio é delicado, pois água de menos desidrata e água em excesso pode sobrecarregar o coração. O termômetro ideal para saber se está bebendo o necessário é a cor da urina, que deve estar clara.
“Quando falamos da melhor idade, o idoso muitas vezes não sente sede, mesmo estando em um quadro de desidratação. Além disso, a pele mais fina dificulta a dissipação do calor, tornando o choque térmico interno mais rápido”, ressalta o cardiologista.
Cuide da alimentação: evite refeições pesadas no calor. Isso porque a digestão de alimentos muito gordurosos ou volumosos exige um maior fluxo sanguíneo para o sistema digestivo, o que inevitavelmente desvia essa circulação de outras partes do corpo.
Esse desvio de sangue sobrecarrega o sistema circulatório como um todo, forçando o coração a trabalhar mais, o que pode ser particularmente perigoso em altas temperaturas, onde o corpo já está sob estresse para manter a temperatura interna estável.
Portanto, para aliviar a carga sobre o organismo e facilitar a termorregulação, prefira alimentos leves, frescos e de fácil digestão, como frutas, vegetais, saladas e carnes magras em porções moderadas.
Mantenha o corpo resfriado: escolha roupas de tecidos como algodão e linho, devido à sua alta capacidade de absorção e respirabilidade. O algodão, em particular, permite que o suor evapore com facilidade. Evite roupas apertadas ou feitas de materiais sintéticos, pois estes tendem a reter o calor e a umidade, dificultando a transpiração e podendo causar irritações na pele.
Banhos ou duchas em temperatura ambiente ou ligeiramente fria é uma das melhores formas de baixar a temperatura central do corpo. Evite a água gelada, que pode causar um choque térmico e, paradoxalmente, levar o corpo a tentar conservar o calor.
Atenção aos medicamentos: muitos idosos utilizam diuréticos e remédios para pressão. No calor, esses medicamentos podem potencializar a queda da pressão arterial ou causar desequilíbrios de eletrólitos (sódio e potássio). A orientação é clara: nunca interrompa ou mude a dose sem supervisão médica.
“Tenha atenção aos sinais de exaustão térmica, que incluem tontura ou desmaio, sudorese excessiva combinada com pele fria e pálida, náuseas ou vômitos e pulso rápido e fraco. Em caso de confusão mental, dor no peito ou temperatura corporal acima de 39°C, é imprescindível buscar atendimento médico”, conclui Marotta.
