Infecção urinária voltou? Saiba quando episódios recorrentes precisam ser investigados

Publicação: 09/10/2026
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Duas infecções em seis meses ou três em um ano já caracterizam recorrência; hábitos, menopausa, cálculos e alterações no esvaziamento da bexiga podem favorecer novos episódios

A cistite (inflamação na bexiga) não complicada em mulheres normalmente se apresenta com ardência ao urinar, vontade frequente de ir ao banheiro. O tratamento costuma ser simples e os sintomas rapidamente desaparecem. O problema é quando, semanas ou meses depois, os sintomas aparecem novamente. Duas infecções urinárias em seis meses ou três no período de um ano já caracterizam um quadro recorrente, situação em que pode ser necessário investigar o que está favorecendo novos episódios, em vez de apenas tratar cada crise.

As mulheres são mais suscetíveis às infecções do trato urinário (ITU), principalmente por características anatômicas. Segundo Rodrigo Campos, urologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, a uretra feminina é mais curta e está próxima ao ânus, o que facilita a chegada de bactérias do intestino ao trato urinário.

A Escherichia coli, bactéria normalmente encontrada no intestino, é o microrganismo mais frequentemente relacionado às infecções urinárias. Quando os episódios começam a se repetir, porém, tratar cada nova crise pode não ser suficiente.

“Quando existe recorrência, precisamos olhar para o histórico da paciente e entender o que pode estar facilitando essas infecções. A frequência dos episódios, a relação com determinados hábitos e as condições clínicas individuais ajudam a definir se é necessário investigar além daquela crise específica”, explica Campos.

Atividade sexual, gravidez e menopausa estão entre os fatores associados às infecções de repetição. Cálculos urinários e alterações que dificultam o esvaziamento completo da bexiga também podem favorecer novos episódios.

Após a menopausa, a redução do estrogênio provoca mudanças na mucosa e na microbiota vaginal que podem aumentar a suscetibilidade às infecções urinárias. Por isso, tanto a investigação quanto às estratégias de prevenção devem considerar a idade, o histórico e as condições clínicas de cada paciente.

Nos quadros recorrentes, a urocultura pode ajudar a confirmar a infecção e identificar a bactéria envolvida. Diretrizes da European Association of Urology recomendam que o diagnóstico de cistite recorrente seja confirmado por cultura de urina. Isso não significa que todas as pacientes precisem passar por uma extensa bateria de exames. Avaliações complementares são indicadas de acordo com o histórico e a suspeita de alterações no trato urinário.

“Um dos cuidados é evitar que a paciente entre em um ciclo de sentir os sintomas e repetir antibióticos sem avaliação. Além de não esclarecer por que as infecções estão voltando, o uso inadequado desses medicamentos pode favorecer a resistência bacteriana”, afirma o urologista.

O que pode ajudar a evitar novas infecções?

As medidas de prevenção dependem dos fatores envolvidos em cada caso. Manter hidratação adequada e evitar passar longos períodos sem urinar estão entre os cuidados que podem ser orientados, especialmente para mulheres que costumam consumir pouco líquido.

A hidratação, inclusive, já foi estudada como estratégia preventiva. Um estudo citado pela diretriz europeia acompanhou mulheres na pré-menopausa que consumiam menos de 1,5 litro de líquidos por dia. A adição de 1,5 litro de água ao consumo diário reduziu a ocorrência de novos episódios de cistite e o uso de antibióticos ao longo de 12 meses.

Em algumas situações, outras estratégias podem ser discutidas com o médico. Para mulheres após a menopausa, por exemplo, o estrogênio vaginal pode ser considerado como medida preventiva. Já a profilaxia com antibióticos é reservada a casos selecionados, quando outras medidas não são suficientes, após avaliação individual dos riscos e benefícios.

A repetição das infecções já é motivo para procurar avaliação médica. Também merecem atenção sintomas que persistem após o tratamento ou retornam em pouco tempo. Febre, calafrios, náuseas, vômitos e dor na região lombar exigem avaliação, pois podem indicar que a infecção atingiu partes superiores do trato urinário.

“Mais do que contar quantas infecções a pessoa teve, é preciso entender o padrão. Saber quando elas acontecem, quais fatores estão presentes e se existe alguma condição favorecendo os episódios permite pensar em prevenção, em vez de simplesmente esperar a próxima crise”, conclui Campos.