Olhos e boca secos podem ser sinais de doença autoimune que também afeta outros órgãos

Publicação: 24/09/2026
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Doença de Sjögren pode causar fadiga, dores articulares e alterações pulmonares e renais; diagnóstico costuma exigir avaliação de diferentes sintomas e exames

Olhos secos, sensação de areia, ardência, boca seca e sede constante são sintomas comuns e, muitas vezes, associados ao uso prolongado de telas, ar-condicionado, medicamentos ou simplesmente à falta de hidratação. Quando persistem e aparecem acompanhados de outros sinais, porém, podem indicar uma doença autoimune pouco conhecida: Doença de Sjögren.

A condição afeta principalmente as glândulas responsáveis pela produção de lágrimas e saliva, mas não se limita a elas. Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), a Doença de Sjögren é considerada a segunda doença reumática autoimune mais comum e afeta cerca de uma em cada 2 mil pessoas no Brasil. É mais frequente em mulheres, principalmente entre 40 e 60 anos, embora também possa ocorrer em homens e em outras faixas etárias.

“Olho seco e boca seca são os sintomas mais conhecidos, mas o que precisa chamar atenção é a persistência e a associação com outras manifestações. A pessoa pode ter cansaço importante, dor nas articulações ou sintomas em outros órgãos sem necessariamente relacionar esses sinais entre si. É justamente essa visão do paciente como um todo que ajuda o médico a levantar a suspeita de Sjögren”, explica Levi Jales, reumatologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo.

Nem toda secura é Sjögren

Ter olhos ou boca secos, isoladamente, não significa ter a doença. A própria SBR destaca que medicamentos, infecções e problemas oftalmológicos também podem provocar esses sintomas. Por isso, a investigação começa pela avaliação clínica e pela exclusão de outras causas.

Nos olhos, o paciente pode apresentar sensação de areia ou corpo estranho, ardência, vermelhidão, dificuldade para manter os olhos abertos e, em alguns casos, visão embaçada. Na boca, a redução da saliva pode provocar dificuldade para engolir alimentos secos, alterações no paladar, língua áspera ou sensação de queimação e maior ocorrência de cáries.

A doença também pode provocar aumento ou dor nas glândulas salivares, especialmente na região das parótidas, além de fadiga e dores ou rigidez nas articulações. A secura pode atingir ainda a pele e outras mucosas.

“Um dos desafios é justamente não atribuir automaticamente a secura ao ambiente, à idade ou ao uso de telas. Esses fatores podem explicar sintomas isolados, mas, quando o quadro é persistente e vem acompanhado de fadiga, dores articulares, aumento das glândulas salivares ou outros sintomas, é importante considerar uma investigação mais ampla”, afirma o especialista.

Do pulmão aos rins

Por ser uma doença sistêmica, a Doença de Sjögren pode ultrapassar as glândulas lacrimais e salivares. Pulmões, rins, pele, vasos sanguíneos e sistema nervoso estão entre os órgãos e sistemas que podem ser afetados.

No pulmão, por exemplo, alguns pacientes podem apresentar tosse seca persistente, falta de ar ou alterações relacionadas à inflamação das vias aéreas e do tecido pulmonar. A SBR chama atenção para a possibilidade de doença pulmonar intersticial, que pode provocar tosse seca e falta de ar.

Nos rins, o comprometimento pode ocorrer de forma menos evidente e afetar o equilíbrio de sais e do pH do organismo. A doença também pode estar relacionada à formação de cálculos renais ou à redução progressiva da função renal.

O sistema nervoso também pode ser envolvido, com manifestações como formigamento, dormência, queimação, perda de força e alterações de memória e concentração. A fadiga, por sua vez, é uma das queixas mais frequentes e pode permanecer mesmo quando outros sinais da doença estão controlados.

Diagnóstico depende do conjunto de sinais

Não existe um único exame capaz de confirmar sozinho a condição. O diagnóstico considera a história clínica, os sintomas apresentados e exames complementares. Entre eles estão exames de sangue para identificar autoanticorpos, como o anti-SSA/Ro, testes para avaliar a produção de lágrimas e saliva e, em determinados casos, biópsia de glândula salivar.

O caminho até o diagnóstico pode ser demorado porque os sintomas iniciais são inespecíficos e podem ser confundidos com situações mais comuns. De acordo com a SBR, estima-se que o intervalo entre o início dos sintomas e o diagnóstico possa chegar a seis anos.

“Não é necessário esperar que apareçam sintomas em vários órgãos para procurar atendimento. Se uma pessoa apresenta secura ocular ou oral persistente, especialmente quando isso começa a interferir na alimentação, na visão ou na rotina, vale conversar com um médico. O reumatologista pode avaliar se existe um quadro autoimune por trás desses sintomas e indicar a investigação adequada”, orienta Jales.

A Doença de Sjögren não tem cura, mas o tratamento pode controlar os sintomas e a atividade inflamatória. A abordagem depende do quadro de cada paciente e pode envolver medidas para combater a secura dos olhos e da boca, além de medicamentos para controlar manifestações sistêmicas quando elas estão presentes. O acompanhamento também pode envolver oftalmologista e dentista, além do reumatologista.